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Carnaval já foi da hora

Do alto de toda a experiência acumulada em seus 8 anos de vida, meu filho sentenciou: “Halloween é muito mais da hora que Carnaval”. E arrematou, impiedoso: “Carnaval não tem a menor graça”. Passou então a discorrer sobre as muitas brincadeiras que acontecem em sua escola no tal do Halloween, ou Dia das Bruxas aqui para nós. A preferida dele, por exemplo, é usar catchup simulando sangue. Não que a escola deixe de fazer também sua homenagem ao Carnaval. Pelo contrário. Na sexta-feira anterior à folia, as crianças são convidadas a ir para a aula fantasiadas e participam de uma míni-matinê com direito a confetes, serpentinas e marchinhas. O problema é que meu filho, talvez a exemplo de tantos outros desta novíssima e agitada geração, não acha “a menor graça” nisso. As tradicionais marchinhas, algumas do tempo dos meus avós, já não empolgam os pequeninos. Tampouco confetes e serpentinas, ao que parece. Acostumada aos mais espetaculares efeitos visuais e sonoros, a criançada de hoje desdenha de pedacinhos de papel arremessados ao ar. Descolada, essa galera deve achar sem sentido a letra que desconfia da masculinidade do Zezé por causa de sua cabeleira. Aliás, se o Zezé é ou não é, tanto faz. Onde está a graça disso?, certamente pergunta-se a turma. E se a Chiquita Bacana, aquela da Martinica, se veste com uma casca de banana nanica, o que há de errado? Nos desfiles que os moleques veem na TV há centenas de mulheres vestindo muito menos que isso. Fato é que a geração do meu caçula não é a primeira, nem de longe, a perder o interesse pelo Carnaval. Pelo menos por aquela folia mais tradicional. Minha filha, por exemplo, vai passar os quatro dias numa fazenda, bem longe daquilo que antigamente entendíamos como folia. Se levá-la a um baile carnavalesco tradicional, que alguns poucos clubes insistem em realizar, ela nem vai saber como se divertir. O Carnaval dos mais novos só faz sentido se for aquele dos trios elétricos e dos abadás. Movido por uma trilha sonora que permite do axé ao sertanejo, passando pelo funk e chegando até mesmo a ritmos eletrônicos estrangeiros. Essa é a festa de jovens que não fazem a menor ideia de quem sejam Pierrot e Colombina. Que vão achar ridículo o duplo sentido de marchinhas que dizem que “a pipa do vovô não sobe mais”. Ou que avisam que a Maria Sapatão, à noite, vira João. E vão gargalhar ao escutar que o Kojak, o homem da lei, “mete bronca na moçada”. Nem sei se tudo isso merece lamentação. O tempo passa, as coisas mudam. Penso até como os clubes contornariam hoje a fiscalização sobre a poluição sonora durante os bailes. Ou sobre a venda de bebidas para menores. Mas, de minha parte, o que restam são ótimas lembranças de uma festa em que, durante quatro dias, a gente era mais feliz.
Escrito por Marcos Paulino às 14h00
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Não suporto novelas

Não suporto novelas. Acho que é o tipo de programa que afronta a inteligência. Longe de mim posar de intelectual que só assiste a canais culturais, pelo contrário, gosto de vários besteiróis. Mas novela, definitivamente, não dá. Há alguns anos, minha mulher ainda acompanhava uma ou outra. Para não ficarmos naquela de cada um num cômodo, eu fazia companhia a ela. Contudo, reclamava tanto das bobagens que via, que até ela, vítima da minha (má) influência, convenceu-se de que novela é chato demais. Diga-me com quem andas e te direi quem és, compreende? E, assim, vimo-nos livres de todos aqueles dramas que começam lá pelas seis da tarde e vão se sucedendo até depois das 10, espremendo noticiários entre eles. Porém, e a vida tem muitos poréns, estávamos de férias semanas atrás e, no apartamento, só tínhamos acesso aos canais abertos. Nada de cabo ou satélite. Longe do “House”, do “Two and Half Men”, do “Big Bang Theory” e do “Grimm”. Privados dos canais de esporte. Alijados dos documentários. Triste. Assim, entre um programa religioso, um telejornal local chatíssimo e a novela, ficamos com a última, mas não foi uma decisão fácil. Lá pelas tantas, a vilã, interpretada pela Christiane Torloni, via-se ameaçada por um rapaz que prometia revelar um vídeo, gravado em seu notebook, que a colocaria em maus lençóis. Mas ela foi salva pelo personagem de José Mayer, com inacreditáveis cabelos e barba longuíssimos e grisalhos. Num piscar de olhos, ele toma o computador das mãos do rapaz, localiza o arquivo e o apaga. O moço fica desolado por perder sua arma. Isso porque não tinha gravado arquivo de tamanha importância em nenhum outro lugar. Nem num CD ou pen-drive. Quem precisa encontrar qualquer coisa em seu próprio computador sabe que essa tarefa, às vezes, pode levar um tempinho. E que, mesmo que se apague o arquivo, ele pode ser localizado na lixeira ou resgatado por um técnico. Mesmo depois do stress, os personagens de Christiane e Mayer transaram tranquilamente. Ah, para completar, parece que Mayer interpreta o pai do rapaz que ele prejudicou. Bastaram tantos absurdos em uma só cena para que eu renovasse minha convicção de passar longe de novelas. Sou muito mais feliz sem elas. E, de quebra, ainda evito que meus filhos criem o hábito de acompanhá-las. Sei que, a esta altura, tem muita gente me criticando. Paciência. É aquela velha história de cada um ter um gosto. Então, quem quiser assistir a qualquer uma das 800 novelas que passam na TV brasileira diariamente, que o faça. Tem todo o direito. Assim como aqueles que gastam seu tempo vendo um monte de gente chata confinada numa casa sem nada para fazer, a não ser picuinhas. Aliás, o que aconteceu com o “estuprador” do “BBB”?
Escrito por Marcos Paulino às 14h46
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Ai, se eu te pego, ai, ai

Nossa, nossa/ Assim você me mata/ Ai, se eu te pego/ Ai, ai, se eu te pego/ Delícia, delícia/ Assim você me mata/ Ai, se eu te pego/ Ai, ai, se eu te pego Quantas centenas, ou milhares, de vezes você já escutou esse refrão? Sim, eu sei, muito mais do que é possível contar, certo? Eu também. Porém, até setembro do ano passado, não tinha ouvido essa música uma vez sequer. Até que estive no Rodeio de Limeira, a trabalho, e me chamou a atenção que todos os artistas que se apresentaram nas oito noites de shows mandaram ver no “Nossa, nossa…”. Em todas as ocasiões, o público veio abaixo, letra e coreografia mais do que decoradas e ensaiadas. Então descobri que Michel Teló, uma das atrações do rodeio, era o responsável pelo hit. Antes de subir no palco, a poucos metros de mim, ele falava ao celular na entrada do camarim, simplicidade total. Naquele momento, Michel sabia que a música era um sucesso nacional, e que tinha potencial para algo mais. Mas talvez nem sonhasse com a repercussão mundial que ela alcançaria pouco tempo depois. Desde então, o paranaense já foi capa de revistas como a “Época” e de tantas outras mais populares. O clipe de “Ai Se Eu Te Pego” soma mais de 100 milhões de visitações no YouTube. E o “sertanejo” deixou para trás os britânicos Adele e Coldplay nas paradas de sucesso de países como Espanha, Itália, Holanda e Bélgica, além de ver seu hit ser o mais baixado no iTunes em outros tantos, a exemplo de Portugal, Alemanha, Polônia, Argentina, Chile, Colômbia e Peru. Até em outra galáxia a canção foi parar, por meio de uma coreografia bem humorada apresentada por Darth Vader e seus stormtroopers. Tanta projeção colocou Michel Teló nos meios de comunicação de todo o planeta. A revista “Forbes”, por exemplo, citou Carmem Miranda ao falar do sucesso do cantor. E, apesar de ter o dobro da idade do canadense, ele foi comparado a Justin Bieber. Seja na versão original, seja na cantada em inglês, “Oh, If I Catch You”, a música teve a coreografia que a acompanha dançada pelo astro português Cristiano Ronaldo e pelos jogadores do Barcelona e do time de basquete americano Denver Nuggets. Isso sem falar em Neymar, figurinha fácil nos shows de Michel. Até paródia de israelenses com direito à polêmica religiosa o forró teve. Agora, uma baiana chamada Sharon, uma das autoras da música, e o grupo Cangaia de Jegue, que gravara a música antes de Michel, começam a tirar uma casquinha do sucesso. Natural. Mas o que nunca deixa de me surpreender é a velocidade com que tudo acontece hoje. Em setembro, eu nem sabia quem era Michel Teló. Hoje, até a rainha da Inglaterra deve saber. Pelo que vi ao vivo, constatei que o cara é talentoso. Resta saber se conseguirá aproveitar a chance para se manter em alta.
Escrito por Marcos Paulino às 14h32
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Uma arma perigosa

Um site exibe um homem amarrado, sangrando por pequenos cortes e através de orifícios como nariz e boca. Alguma espécie de anticoagulante vai sendo inserida gota a gota em seu corpo, de modo a evitar que o sangramento estanque. A cena é transmitida ao vivo, com um detalhe perverso: quanto mais gente acessa o site, mais rápido o pobre coitado derrama sangue. E o mostrador do número de pessoas entrando na página não para de crescer. Até que o homem morre. Essa é uma das cenas do filme “Sem Vestígios”, de 2008, que assisti por acaso, num canal qualquer, uns dias atrás. A vítima em questão foi torturada até a morte por um doido cujo pai se matara saltando de um viaduto. O suicídio foi filmado por um canal de TV, que o exibiu várias vezes na íntegra, satisfeito com os índices de audiência que conquistara. Como vingança, o lunático vai colecionando suas caças, sempre com o mesmo modus operandi: fazer com que os internautas, ao acessar seu site, contribuam para os assassinatos. Não adiantam os apelos das autoridades para que ninguém entre na página do criminoso. A curiosidade e o sadismo falam mais alto. A questão colocada em discussão, óbvio, é até que ponto temos nosso quinhão de culpa pelas atrocidades que viajam pela internet. Todo mundo que acessa a web já recebeu fotos e vídeos que mostram mortes de várias formas, por choque elétrico, acidentes, ataques de animais, assassinatos etc. e tal. São cenas dramáticas da vida real que se tornam nada mais que diversão. Quantos de nós nem pensam duas vezes antes de passar essas imagens para nossos contatos? No filme, o assassino diz que o trauma com a morte do pai só aumentou quando a cena do suicídio ganhou a internet e passou a se propagar sem parar. “Em um site, a cena é descrita apenas como ‘uau!’”, ele conta, para exemplificar que a queda fatal do pai virara apenas brincadeira. Tornou-se um clássico na web a filmagem de um jornalista americano sendo decapitado no Paquistão. Uma pesquisa no Google sobre o assunto retorna inclusive comentários que fizeram acerca dos barulhos ouvidos durante a execução. Fico imaginando o que aconteceria se, a exemplo do filme, os algozes do americano condicionassem sua morte ao número de pessoas que estivessem assistindo. Quanto mais audiência, mais a faca seria apertada contra seu pescoço. Não duvido que o fim do jornalista fosse o mesmo. A internet nos aproximou como nunca das pessoas de toda a parte do mundo. Isso é bom. Por outro lado, o avanço da tecnologia, infelizmente, não vai parar apenas nas mãos de quem pretende fazer o bem. E a informação pode ser uma arma perigosa. Numa época em que (quase) todos têm acesso a ela, mais do que nunca devemos saber usá-la.
Escrito por Marcos Paulino às 08h07
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Fauna de sem-vergonhas

- Aí, doutor, deixa 20 na saída. - Vinte reais?! Você tá louco. - Tá bom, pro senhor eu vou fazer por 10. - Mas você vai estar aqui quando eu voltar? - Se eu não estiver, Deus vai estar. - Mas pra Ele eu não precisaria pagar nada… Esse foi o diálogo que mantive recentemente com um “guardador” de carros numa rua próxima ao ginásio do Taquaral, em Campinas. Ele acompanhara atentamente as manobras que fiz para o automóvel caber no espaço e, mal abri a porta, já foi oferecendo, ou melhor, impondo, seus “serviços”. Há pouca coisa que me deixa mais irritado que flanelinhas. Sempre tento argumentar comigo mesmo que o cara só está ali porque precisa, mas nunca me convenço. Dá uma raiva danada ter que entregar dinheiro a alguém para poder parar num local público. Quer dizer, obrigado ninguém é, mas quem vai se arriscar a ter o carro danificado e, no fim das contas, gastar mais com o conserto do que com a “gorjeta”? O irônico é que, para assistir ao jogo de vôlei naquele dia, o ingresso era apenas um quilo de alimento. Ou seja, ficou mais caro pagar o flanelinha do que para ver uma partida de nível profissional. E olha que, em cidades como São Paulo ou Rio de Janeiro, o prejuízo seria certamente bem maior. Fico pensando como vai funcionar durante a Copa do Mundo ou a Olimpíada no Rio. Como vai reagir o turista estrangeiro que alugar um carro e for coagido a pagar a um malaco qualquer para estacioná-lo? Há realmente alguns aspectos da cultura brasileira difíceis de entender. Outro dia, conversei com uma pessoa que está disposta a se candidatar a vereador nas próximas eleições. Na verdade, não está muito interessada em se eleger. Mas diz que o candidato a prefeito que vai apoiar lhe prometeu um cargo no alto escalão. E, como tem certeza que o fulano vai ganhar, já se sente em seu gabinete na prefeitura. Até aí, vá lá. Mas o pior veio depois. “Quero entrar lá pra me arrumar. Chega de ser pobre”. E a tal pessoa ainda teve a desfaçatez de avisar que me convidaria para trabalhar com ela. Educamente, eu lhe disse que se o convite fosse para um trabalho sério e honesto, até ouviria a proposta. Mas que, com a intenção que ela pretende entrar para o setor público, que nem perdesse seu tempo. No final do ano, um deputado federal de Ribeirão Preto foi denunciado por pagar, com dinheiro público, os salários de um motorista encarregado de transportar seus filhos. E o parlamentar ainda argumentou que não vê “nada demais nisso”. Flanelinhas, candidatos que só pensam em se “dar bem”, deputados que gastam dinheiro do povo para seus confortos, é gente desse tipo que compõe a fauna nacional de sem-vergonhas, e que torna mais difícil a vida dos brasileiros.
Escrito por Marcos Paulino às 14h55
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Tic,tac,tic,tac,tic,tac,tic,tac

A história se consome diante de nossos olhos. Escorre por entre os dedos, maleável, ininterruptamente. Nada a detém. Os ponteiros do relógio a empurram num movimento cada vez mais acelerado. Sempre, sempre. Tic,tac,tic,tac,tic,tac. Assim vai ela, a história, seguindo seu rumo sem fim. O ponto de parada é o infinito. De onde ela veio, não se sabe ao certo. Mas para onde vai, tem-se a certeza: para frente. De roldão, vai levando tudo e todos. Sugando o que se coloca à sua frente num redemoinho do qual ninguém escapa. Impiedosa. Ruidosa. Constante. É um trem de alta velocidade. Cada vez mais alta. Segue, segue, segue. Incansável. Um dragão soltando fogo pelas ventas, incinerando seus obstásculos. É uma usina. Sua matéria-prima é o futuro. Que transforma em presente. E, já em seguida, em passado. O passado é a fumaça que gera enquanto tritura dias, horas, minutos, segundos, centésimos, milésimos. O que vem depois, mesmo? Não importa. Qualquer fração de tempo lhe serve de energia. Mastiga tempo. E cospe passado. Isso, é assim que funciona. Tic,tac,tic,tac,tic,tac. Enfim, o que é o tempo, senão uma invenção para tentar medir o quão rápido passam as vidas? Uma constatação de que somos produtos perecíveis. Perecemos, é certo. Uns mais, outros menos. Mas perecemos todos até o ponto onde nem perecer mais é possível. Onde a história, ah, essa história, engole-nos sem maiores avisos. Sem alertas. Sem placas de advertência. Viramos, nesse momento, nós também parte da história. Rezemos então para que tenhamos, pelo menos a maior parte do tempo, feito o suficiente para que nosso capítulo seja contado sem receio. Vimos, agora mesmo, homens impassíveis, intocáveis, intransponíveis serem absorvidos pela história como a água é pela esponja. Assim como aumentam seu volume, por ela escorrem. Alguns deixam nela o rastro da sujeira que acumularam enquanto viviam em seus castelos. Deixam-na marcada pelo sangue que arrancaram de tantos outros, que, esses sim, passarão por ela gotejando apenas o perfume de quem, de tanto sofrer, transformou-se em anjo. Num belo anjo. Cidades submergem. Cidades secam. Cidades racham ao meio. Implodem. Explodem. É a história, de novo ela, rastejando por entre suas ruas. Passando sob, e sobre, seus prédios. Serpenteando lasciva, escorregadia. Ganhando embalo. Iniciando guerras. Acabando com guerras. Provocando risos e choros, suspiros e gritos. Pintando o belo. Desenhando o feio. Apagando tudo, o belo e o feio. Quem somos nós para lhe dizer quando parar? Quem pode marcar para 2012, ou para qualquer outro ano, seu fim? Não, ela mesma decidirá. E não parece nada disposta a isso. Resta-nos observá-la, indefesos. Resignados. Assim será. Tic,tac,tic,tac,tic,tac.
Escrito por Marcos Paulino às 10h47
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Partícula de Deus

A coisa é bem complicada. Posso dizer que ultrapassa, pela distância de muitos anos-luz, minha parca capacidade de compreensão do vai-e-vem do mundo da física, com suas fórmulas, equações, suposições e tudo o mais. Se nunca fui um aluno brilhante, daqueles que ganham medalha todo ano como melhor da classe, também não era de ficar na rabeira. Mas, confesso, a física sempre foi meu calcanhar de Aquiles. Eta matéria difícil de entender! Entretanto, dono de uma curiosidade sem tamanho, interesso-me em ler matérias sobre alguns estudos científicos que tentam desvendar enigmas propostos pela física. E foi assim que me deparei com uma reportagem que descrevia o trabalho de grupos de cientistas empenhados em comprovar a existência do bóson de Higgs. Li e reli, mas pouco entendi. Porém, se não estou totalmente enganado, o tal bóson seria a partícula que explicaria porque todas as outras têm massa. Por essa característica, o bóson de Higgs é apelidado de “partícula de Deus”. Ele é a peça fundamental daquilo que os físicos chamam de Modelo Padrão, a teoria que explica, como me ensinou a reportagem, “as interações entre as partículas, componentes fundamentais de tudo o que existe”. Espero que quem entende mais de física do que eu, ou seja, praticamente toda a humanidade, não detecte um mar de besteiras no que escrevi até agora. Até porque não é exatamente com a física que estou preocupado. O que me encantou foi o nome: “partícula de Deus”. E é a partir daqui que a nossa conversa muda. Isto é, se você, leitor, ainda estiver acordado. Repare no antagonismo das duas palavras, “partícula” e “Deus”. Uma designa o que há de menor no Universo. A outra representa aquilo que nós, seres humanos, independentemente da religião, entendemos como sendo maior que tudo. Tão imenso que não temos nem a capacidade para compreender. As religiões, inclusive, no meu humilde modo de pensar, só foram inventadas para tentar explicar esse sentimento que temos, de que há algo, ou alguém, muito maior que nós a comandar este Universo que ousamos chamar de nosso. Pois como esse alguém, que faz estrelas e planetas nascerem e morrerem como se fosse bolhas de sabão, também inventou partículas tão pequenas, mas não insignificantes, quanto o bóson? É por isso que Deus não se explica. Crê-se nele. Ou não. De minha parte, não preciso de um acelerador de partículas, como os cientistas, para achar traços da existência de Deus. A prova de que existe está nos clichês da vida. Numa lufada de ar, no perfume do final da tarde, na chuva que verdeja as plantas, no calor que emana do Sol, num céu daqueles bem azuis. Está naqueles que nos cercam e no que sentimos por eles. Está em cada tic-tac desta vida. E talvez de outras.
Escrito por Marcos Paulino às 13h28
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Minha fã número 1

Não importa o que eu faça, ela nunca fica brava comigo. Na verdade, a minha simples companhia já é suficiente para que esteja satisfeita. Não preciso dizer uma só palavra. Embora, às vezes, ela sinalize lá do seu jeito que ficaria ainda mais feliz se recebesse algum carinho. Mas, se eu não estiver disposto, continuará firme ao meu lado. Estar próxima a mim para ela deve a ser a melhor coisa do mundo.
Difícil entender esse apego. Pois comigo ela não tem privilégios. Muito menos mordomias. Se acho que está abusando da minha boa vontade, basta uma olhadela de repreensão para que rapidamente se recolha ao seu canto. E nada de guardar rancores. Por mais que eu a tenha desprezado, basta dar algum sinal de que, agora sim, seria bem-vinda, que lá vem ela, toda entusiasmada atender ao meu chamado. Até naquelas atividades para as quais é difícil achar companhia ela faz questão de não me abandonar. Uma corridinha, por exemplo? Topa na hora. Não sabe andar de bicicleta, mas fica contente só de poder me manter dentro de seu campo de visão. Futebol? Adora. Mesmo que não a deixe jogar, não abandona a lateral do campo. Se vou lavar louça ou desafinar tocando violão, não me deixa só de jeito nenhum. O que lhe dou em troca de tanta dedicação? Um prato de comida, água fresca, banhos de vez em quando e uns afagos – ela prefere na barriga e atrás das orelhas. Essa é a Penélope, uma pastora preta que ganhei de meu irmão há seis anos. Ainda pequenininha, quase sucumbiu à uma doença transmitida por carrapato. Naquela época, devido às visitas frequentes ao veterinário e à fraqueza que sentia, ficava aos meus pés enquanto eu trabalhava. Passava o dia todo comigo. Sarou e virou uma cachorra de uma inteligência que não se cansa de me surpreender. Costumo brincar em casa que ela é a “pessoa” que mais gosta de mim neste mundo. Por isso não consigo acreditar que alguém tenha coragem de maltratar tão cruelmente um ser que tem tanto a nos dar. Como uma pessoa pode enterrar um cãozinho, ainda filhote, vivo, como aconteceu esses dias em Novo Horizonte? Ou espancar sua cachorra a ponto de triturar a sua mandíbula, como foi registrado em Tanabi? O que passa na cabeça desses – esses sim – animais irracionais, criminosos de sangue frio? Uma das minhas máximas é de que “gente é gente, cachorro é cachorro”. Não quero dizer com isso que uma espécie é melhor que a outra. Apenas são diferentes, e têm anseios, satisfações e problemas diferentes. O que é bom para um humano não o será necessariamente para um cachorro. Entender isso torna as coisas mais saudáveis para os dois lados. Não conseguimos corresponder o amor incondicional que eles nos reservam. Mas o mínimo que podemos fazer é tratá-los com respeito, dignidade e carinho. Se não gosta de bichos, é fácil: não tenha um.
Escrito por Marcos Paulino às 14h04
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Só leia se for corinthiano

Era dezembro de 1982 e o Corinthians faria a final do Campeonato Paulista contra o São Paulo, em duas partidas. Eu estava naquela fase em que ainda se é criança, mas já se quer ser adolescente. E, corinthiano desde sempre, nascido numa família com pai e irmão são-paulinos, estava bem nervoso para aquela decisão. O Corinthians vivia um momento especial, era época da Democracia Corintiana. Que eu não sabia muito bem do que se tratava, só entendia que aquele meio-campista alto e muito magro, o “doutor” Sócrates - porque também era médico e eu achava isso o máximo - liderava a equipe com ideias ousadas para um período de ditadura. Ele pregava que todos, do roupeiro ao presidente do clube, participassem das decisões, tendo votos com o mesmo peso. Num campeonato em que já havia imposto um 5 a 1 no Palmeiras, o Timão chegava àquela final com moral. Não deu outra: com duas vitórias, ficou com o título. Lembro que comemorei como louco. Quis o destino que, no ano seguinte, Corinthians e São Paulo novamente se encontrassem na decisão. Os tricolores, desta vez, tinham um time forte, e eram favoritos. Eu já até tentava me conformar com a derrota. Mas o tal de doutor jogou demais e mais uma vez o título foi para o Parque São Jorge. A cada vez que o Corinthians chega numa final, como a do domingo passado, vem-me à mente aquele bicampeonato. Foram momentos sofridos, nervosos, mas também mágicos. Uma aula prática do que é ser corinthiano. E quando meus filhos decidiram que iriam torcer pelo mesmo time do pai, fui sincero em advertir que não seria fácil. E eles sentiram isso na pele nos últimos jogos do Brasileirão deste ano. Quando tudo parecia que seria resolvido com uma rodada de antecedência, o Vasco consegue uma sobrevida na luta pelo título. Foi duro ver o pequeno Ian chorar de frustração. Acho que mesmo ainda um tanto pálido, tentei garantir que nossa festa só havia sido adiada por uma semana. Não convenci. Porque claro que eu sabia que, quando se trata de Corinthians, é sofrimento até o último minuto. E tem mesmo que ser assim, afinal a conquista é mais gostosa. Pensei no jogo final contra o Palmeiras a semana inteira. Acordei no domingo sabendo que o frio na barriga acompanharia todas as horas do meu dia. Mas não sabia que a emoção ficaria ainda mais à flor da pele porque o doutor nos deixaria. Justo na decisão. Foi duro não chorar quando os jogadores levantaram o braço no minuto de silêncio, assim como Sócrates fazia para comemorar seus gols. E foram duros os 90 minutos seguintes. Não poderia - nem deveria - ser diferente. Mas a volta na praça com a família, bandeira para fora do carro, fez tudo valer muito a pena. E o choro do Ian, agora, era de alegria. Ah, e se apesar do aviso no título, você leu e não é corinthiano, não deve ter entendido nada.
Escrito por Marcos Paulino às 11h26
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Punição civilizada

Dois terços dos Estados americanos utilizam a pena de morte. Não sei dizer exatamente em quais situações, mas familiares de vítimas dos condenados à pena capital são autorizados a acompanhar a execução. É uma cena que já foi retratada em vários filmes e sempre me provoca reflexões. Afinal, o que sente a pessoa que pode presenciar o fim de alguém que lhe causou extrema dor, tirando a vida de um parente que ela amava? Vingança, paz, o consolo de que a justiça foi feita? Certamente, isso está aquém da nossa capacidade de imaginação. Só sentindo na pele mesmo, e quem há de desejá-lo? Eu, de minha parte, sofro um estranho desconforto quando vejo no noticiário que algum condenado terá executada sua sentença de morte. Por mais que não haja dúvidas de sua culpa. Difícil explicar o porquê, mas fico sempre com uma sensação ruim, não consigo assimilar essa coisa de olho por olho, dente por dente. Assim, foi com algum asco que acompanhei as cenas da captura de Muamar Kadafi, que pouco depois seria executado por seus perseguidores. O mal que esse homem causou ao seu país e a seus conterrâneos por certo o condena a uma eternidade no inferno. Foram milhares de inocentes mortos para que sua ditadura se perpetuasse. E incontáveis pessoas que pagaram com sua vida, sua honra, sua dignidade apenas para que ele se divertisse. Um monstro, sem dúvida. Mas quando se vê alguém assim ferido, maltrapilho, olhos esbugalhados à espera do pior, percebe-se que, debaixo de toda aquela soberba e crueldade, há um ser humano. Da pior espécie, mas um ser humano. Por mais que, racionalmente, eu quisesse dizer “Bem-feito, teve o que mereceu”, emocionalmente ficaria mais em paz se ele tivesse um julgamento justo. Justiça que, frise-se, ele nunca ofereceu a quem atravessou o seu caminho. Mas por que ser igual a ele? Desce um pano rápido nestas reflexões e, salientando que, por óbvio, não cabe nenhuma comparação com o ditador líbio, vejo as cenas da família do prefeito de Limeira saindo da cadeia. À espera de sua mulher e filhos, nenhum dos tantos assessores que lhes cobriram de paparicos nos últimos anos. Quem lá estava era uma multidão raivosa, querendo fazer justiça com as próprias mãos. É em momentos como esses que o povo, farto de tanto ser enganado, troca razão pela emoção. E quer resolver tudo ali, na hora. Fiquei incomodado com populares tentando agredir os filhos do prefeito. Não gosto de violência, não acho que é assim que as coisas devem ser resolvidas. Quero acreditar que, se crimes realmente foram cometidos, como as evidências sugerem que foram, que sejam apurados e comprovados. E que os criminosos, se houver, sejam exemplarmente punidos. Mas temos que dar esse exemplo de forma civilizada.
Escrito por Marcos Paulino às 10h46
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Eu acho chato…

Estou de saco cheio. Sempre. Um ranzinza, isso é o que sou. Fazer o quê? Que culpa tenho se não acho qualquer bolo de fubá “hummmm, que delícia”. Se não acho toda criança “que lindinha”. Não tenho inveja de todo mundo que está viajando. Não acho todas as fotos lindas. Não considero todas as receitas maravilhosas. Tenho aversão a frases feitas. Não suporto pensamentos atribuídos a celebridades que nunca, nunca mesmo, nem imaginaram falar aquilo. Implico, muito, com quem manda e-mails fofinhos.E mais ainda com aqueles que trazem orações. Daqueles que, se você não passar para 18 pessoas, não vai ganhar alguma coisa. Você acha mesmo, ô xarope, que Deus está olhando quem repassa e-mails pseudo-religiosos para decidir quem vai para o céu ou não? Ele, esse mesmo, com letra maiúscula, está cheio de coisas para fazer. Vide o Oriente Médio, onde um israelense vale milhares de palestinos. Mas como, afinal, quantificar quanto vale uma vida? Seja você judeu, muçulmano, budista, o raio que o parta, sua vida vale tanto quanto a minha. Por que viver o aqui e o agora pensando no que virá depois? Se é que virá. Por que não sermos o melhor possível neste momento, just in time? Se você pode ajudar, faça isso. Se não, pelo menos não atrapalhe. Sabe, tem um quadro num programa qualquer da TV Record, em que humoristas disputam um prêmio, acho que é isso, e uma das provas é fazer piada sobre a frase “O que acho chato”. Respondo, mesmo sem ser convidado. Acho chato quem se acha. Quem é o felizão de fachada. Quem não faz nada para ninguém e se sente um santo. Quem coloca um adesivo “Deus é fiel” no carro e não tem educação nenhuma no trânsito. Quem acha que ser religioso é pagar o dízimo. Quem pensa que terá lugar no Paraíso só porque sabe bater palma. Acho chato quem julga todo mundo, o tempo todo. Quem acha que só ele é certo neste planeta. “Não vive como eu, está perdido”. Acho chato o cara que não respeita a faixa de pedestres. Que joga a bituca de cigarro no chão mesmo tendo um lixo ao lado. Que acha que o mundo foi criado para servi-lo, e não o contrário. Acho chato quem fala demais, quem não conversa, discursa. Quem só quer ter direito; deveres, necas. Acho chato quem manda e-mail e coloca no assunto “Urgenteeeee!!!!”. E mais ainda quem manda aquelas correntes dizendo que alguém da sua família vai morrer se você não repassar. O cara não tem coragem de quebrar o ciclo e te passa só para se garantir. Bunda-mole. Não adianta você me chamar de ranzinza, eu mesmo já fiz isso lá no começo, lembra? Um desabafo? É, pode dizer que sim. Tenho tantos defeitos que eu mesmo mal me aguento. Mas um erro não justifica o outro, certo?
Escrito por Marcos Paulino às 15h46
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Tradutor de adesivos

Eles estão nos mais variados modelos de carros, aos montes. “Enfeitam” desde o Fusquinha 1969 até a nave último tipo, recém-tirada da concessionária. Parecem onipresentes. Você já cansou de ver, tenho certeza. Sim, sim, falo daqueles adesivos da “família feliz”, que retratam papai, mamãe e filhinhos, todos de mãos dadas, sorrindo para o mundo. Sem entrar na discussão sobre o que é brega ou não - até porque, quem sou eu para discorrer sobre tema tão complexo? – desenvolvi um estranho hábito nos últimos tempos, por conta dos tais adesivos. Assim que vejo um deles, fico tentando interpretá-lo, traduzi-lo. Quem, afinal, faz parte daquela família que, de tão unida, precisa demonstrar isso a todo mundo? Parece tarefa simples. E em alguns casos, realmente é. Se o adesivo tem enfileirados (sempre de mãos dadas) um homenzinho, uma mulherzinha e uma garotinha, por exemplo, logo se deduz que a família é composta de um responsável papai, uma amorosa mamãe e uma cativante menininha. Vamos, é claro, para não alargar por demais esta importante reflexão, deixar de lado as interpretações menos ortodoxas. Seguindo este raciocínio, quanto mais figurinhas aparecem na fileira de familiares, mais complexa vai ficando a interpretação. E é aí que esse instrutivo passatempo começa a ficar emocionante. Outro dia, vi um adesivo que devia ter mais de um metro de largura. Começava com um casal central e, das mãos de cada um dos cônjuges (pelo menos imaginei que eram cônjuges), iam se estendendo duas filas de parentes. Tinha de tudo: outros casais, adolescentes, crianças, bebês. Pus-me a traduzir. O casal central seria o equivalente aos avós. De suas mãos, partiriam as subfamílias formadas com os casamentos dos filhos. E a partir daí os lindos rebentos gerados pelas duradouras uniões. Se todos os filhos se casaram, ótimo. Mas e se um deles ficou solteiro, onde entraria nesse cordão? Donde podemos concluir que ajeitar adesivos no carro, de modo que a família seja fielmente retratada, pode se tornar uma arte. Tem aqueles casais também que, de tão apaixonados, um ao outro se bastam. É só colocar o homenzinho e a mulherzinha de mãos dadas e o trabalho está concluído. São o equivalente, no mundo dos adesivos familiares, aos artistas minimalistas. Por outro lado, temos quem não queira deixar ninguém de fora, não importa a qual espécie pertença. Aí entram cachorros, gatos, aves, peixes, tartarugas e pequenos roedores, para ficar naqueles que eu mesmo vi. De plantas, não me lembro. E há ainda as atualizações necessárias. Dia desses, constatei no adesivo o pai, um espaço e os filhos. Opa! Seria a retratação de uma dolorosa separação?, pensei, quase como um expert na tradução de adesivos. Mas preferi acreditar que fosse apenas a cola da mulherzinha que não tivesse suportado o infernal vai-e-vem do trânsito.
Escrito por Marcos Paulino às 15h08
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Movimentos antipáticos

Viaturas na reitoria da USP - Foto:AE
Eram nada menos que 400 policiais, divididos em 50 viaturas e contando com apoio até de helicóptero. Todos os homens, pertencentes ao Batalhão de Choque da Polícia Militar, devidamente equipados com capacetes, escudos, botas e mais aquele arsenal que impressiona de verdade. A ação, porém, não era para invadir alguma favela dominada por traficantes ou partir para o confronto com uma torcida organizada daquelas bem violentas (há alguma que não seja, enfim?).
Os policiais tinham como missão desocupar a reitoria da USP, invadida dias atrás por estudantes revoltados, ironicamente, com um acordo que coloca a PM dentro do campus. E este havia resultado na detenção de alunos que fumavam seu baseadinho dentro das dependências da universidade. A verdade é que se a polícia for prender todos os universitários que fumam maconha nos campi em que estudam, vai ser preciso construir um monte de cadeias.
Mas isso não quer dizer que a droga está liberada, seja dentro ou fora das universidades. E há que se entender que os tempos são outros. Não dá mais para as instituições de ensino recusarem a presença da polícia. Prova disso são os recentes estupros e assaltos que fizeram tantas vítimas justamente na USP. Se aumentar a segurança limita a liberdade pela qual tanto clamam os jovens em idade universitária, é um preço justo a ser pago.
O fim desse episódio da ocupação da reitoria é que a PM foi eficiente no que se propôs a fazer, ninguém saiu ferido e o espaço foi devolvido a quem de direito. Desconfio que a maioria da população aprovou essa ação. Porque, afinal, há movimentos que não conseguem a simpatia, muito menos a adesão, de quem não é diretamente interessado naquilo. Ouvi vários comentários de que a atitude dos estudantes era coisa de playboy maconheiro que não quer respeitar a lei.
Nem tanto ao Sol, nem tanto à Lua, sou da opinião de que o diálogo deve ser tentado à exaustão antes de atitudes mais intempestivas. Agora, se um caso como esse desperta a antipatia de boa parte das pessoas, o que dizer de greves como a dos carteiros e dos bancários? Longe de mim querer analisar se as reivindicações das duas categorias eram justas ou não.
Cada um sabe onde aperta o seu calo. Mas quanta gente não teve problemas por causa das greves? Contas atrasadas, prazos perdidos, o prejuízo, em dinheiro e tempo, foi grande. Eu também amarguei juros de mensalidades que não pude pagar e tive até celular cortado por causa disso.
Se a paralisação de serviços essenciais força decisões rápidas, também pune quem não tem culpa. Mas quem há de ser contra o direito dos trabalhadores de buscar aquilo que acham justo? São percalços de uma democracia em que direitos e deveres ainda se estranham quando se encontram em fronteiras nebulosas.
Escrito por Marcos Paulino às 15h08
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O galã Ronaldinho

Diga-me, leitora, o que você acha do Ronaldinho Gaúcho? Imagine aqueles cabelos longos, sempre envoltos por uma faixa. O sorriso proeminente. O modo de se vestir tão peculiar. E então, você o enxerga como um tipo atraente? Machão jurássico que sou, vou me abster de opinião. Por isso mesmo queria saber a sua. Afinal, nada menos que 25,5% das mulheres apontaram o craque do Flamengo como seu jogador favorito em pesquisa realizada pela Sport +Markt. Apresso-me em avisar que o levantamento não diz respeito à beleza dos boleiros. Tanto que os homens também foram convidados a opinar e, veja só, 26% deles têm Ronaldinho no topo de suas preferências. No entanto, imagino que homens e mulheres recebam a pergunta “Qual o seu jogador de futebol preferido?” sob diferentes perspectivas. Nem sei se foi exatamente essa a questão elaborada, mas certamente foi parecida. Acredito piamente, machista que sou, que os homens responderam segundo seus próprios critérios pseudotécnicos. As mulheres devem ter buscado um algo mais. A propósito, em primeiro lugar na preferência delas está Neymar, com 28,8% dos votos. Li sobre essa pesquisa justamente quando tentava elaborar uma tese sobre o porquê de Neymar ser recebido com gritinhos histéricos das meninas por onde passa. Até consultei minhas bases para esse tipo de assunto, a saber, minhas mulher e filha, sobre o que achavam dos predicados físicos do rapaz. Houve certa divergência entre elas, mas o consenso foi de que, se não é lindo, também não é de se jogar fora. Mas daí a despertar tanto interesse feminino há, ou deveria haver, alguma distância. Certo? Errado! O que as garotas veem em Neymar não é só sua aparência. Fantasiam com o conjunto: a habilidade, a ousadia, o sorriso aberto, a cara de quem já tem a vida ganha, apesar de tão jovem. Nessa situação, o sujeito não precisa ser nenhum Brad Pitt. As pessoas nutrem tanta simpatia por ele que querem achá-lo bonito. Passam por cima dos defeitos e focam nas qualidades. Seguindo nesta linha de psicologia de botequim, passo a Kaká, que era líder da pesquisa em 2010, quando foi apontado como preferido por 19% das mulheres. Agora, ficou em terceiro, com só 4,6% dos votos. Kaká, ao lado de astros como Beckham ou Cristiano Ronaldo, está naquela categoria de atletas tão cultuados pela eficiência quanto pela estampa. E não chega nem a 5% das preferências. Será que seu jeito de bom menino está fora de moda de vez? Sei lá, os tipos na berlinda vão e vêm. Mas e o Ronaldinho Gaúcho? Não tem a beleza do Kaká nem a simpatia do Neymar. De duas, uma: ou a mulherada realmente vê coisas que a gente não enxerga, ou elas também estão pensando em futebol na hora de escolher o jogador predileto.
Escrito por Marcos Paulino às 12h02
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Nova vida à baixada

(Foto: Gazeta de Limeira) Li com quase incontido entusiasmo a notícia de que a Prefeitura de Limeira vai levar a cabo a ideia de revitalizar o entorno da estação ferroviária. Logo me lembrei, no entanto, que a atual administração municipal é um tantinho chegada a mandar factóides ao léu, e, tirando meu cavalinho da chuva, vou esperar que as medidas sejam realmente colocadas em prática para comemorar. Porém, com o otimismo turbinado por 2012 se tratar de um ano de eleições, que é quando as coisas costumam acontecer, aguardarei ansioso pela implantação do projeto. Espero que, desta vez, não aconteça como em tantas outras ocasiões, em que aqueles bonitos papeis, que guardam desenhos de futuras realizações, foram relegados ao descanso em paz nas prateleiras da Secretaria de Planejamento e Urbanismo, depois de serem apresentados à imprensa com toda a pompa e circunstância. Revitalizar os quarteirões que rodeiam o traçado da linha férrea no Centro será fundamental para dar outra cara a Limeira. A cidade comemora, com razão, a vinda de uma multinacional que abrirá milhares de postos de trabalho. Também se prepara para ganhar um novo e grande shopping. O segundo campus da Unicamp recebe mais estudantes a cada ano. E há outras boas notícias engatilhadas, conforme se comenta aqui e ali. E, tal qual a mulher que espera um pretendente capricha no batom, é bom que estejamos com uma cara boa para a chegada de tantos e ilustres novos moradores. Não é possível, portanto, que pelo trecho por onda passa a maioria dos visitantes que aqui chegam, o que se veja seja um casario caindo aos pedaços. Conceder descontos no IPTU para os proprietários que melhorarem seus imóveis me parece uma boa ideia. Algumas desapropriações provavelmente se farão necessárias. Mas esse é o tipo de investimento que vale a pena. Todo mundo sabe que, quando o vizinho progride, queremos nós também melhorar nosso barraco. Assim, talvez se forme uma corrente que vá contaminando com a vontade de mudar aqueles que ocupam imóveis na baixada da ferroviária. Não adianta, contudo, só dar uma demão de tinta e acender uns refletores, como foi feito na estação de trens. É preciso dar uma destinação que torne úteis, além de bonitos, os imóveis. Estou certo de que há gente gabaritada e criativa na Prefeitura para pensar em algo assim. Imagine, por exemplo, aquela ruazinha sob o viaduto Jânio Quadros, com casas construídas há décadas para receber funcionários da companhia de trem, como um polo cultural e de lazer. Os atuais moradores poderiam ser deslocados para boas casas em outros locais. E ali a cidade ganharia, quem sabe, barzinhos com mesas na calçadas, talvez uma livraria, um som ao vivo, um espaço para dançar. Que tal?
Escrito por Marcos Paulino às 15h07
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