Vade Retro
   Viva Adele. E Guardiola

O que te faz chorar? Não, não. Esqueça tristezas e alegrias, por óbvios demais. Chorar com o peito explodindo de felicidade ou com o coração partido pela melancolia não vale. Avance um pouco mais. Diga o que te faz derramar aquela lágrima inesperada, aquela emoção forte que fica difícil de explicar. Como chorar por algo bonito de verdade, um som, um objeto, uma atitude.

Bem, comigo acontece de vez em quando. Normalmente, tento disfarçar. É bobagem, bem sei, homem também chora, vão me dizer. Mas sei lá, são os recalques de macho durão que se esgueiram pela minha mente. Algumas vezes, porém, não dá. Tempos atrás, chorei tanto durante um filme em que o cachorro esperava anos a fio por seu dono, já morto, que saí do cinema inchado. Como esconder olhos vermelhos como brasa?

Mas, vá lá, o filme trouxe à tona lembranças difíceis, então vamos colocar essas lágrimas na conta da saudade. Quero um sentimento mais surpreendente. Na verdade, meu desejo é compreender por que meus olhos se encheram de água ao ver Adele, tão jovem, rasgando o ar com sua voz na canção “Set Fire To the Rain”, em sua apresentação no lendário Royal Albert Hall, de Londres.

Entenda, leitor. Estou falando de um cara que tem os ouvidos calejados por guitarras que gritam e baterias espancadas, por vozes que estilhaçam blindex. Impulso puro, postei no Facebook, junto com o vídeo da Adele: “Esta música derrete meu coração heavy metal”.

Houve quem curtisse e quem não se manifestasse só porque é meu amigo do peito. E houve quem achasse “lamentável”. Fazer o quê? A sinceridade tem seu preço. Ninguém, contudo, entendeu meu apelo. Queria só uma explicação. Por que aquela música me diz tanto, que nem sei o que é? Então, por quê?

Ainda sem resposta, no dia seguinte, as tais lágrimas que ficam guardadas nesse poço de emoções que não se explicam emergiram novamente. Assisti à homenagem que a torcida do Barcelona fez ao técnico Pep Guardiola, que se despedia da equipe. Tudo tão tocante, a música, as palavras do treinador, os cartazes dos torcedores. Como evitar que aquelas lágrimas mais uma vez descessem pelas bochechas?

Caramba, nem era meu Corinthians! É um time lá da Espanha, que para mim não diz nada. De novo: então por quê? Alguém explica o sentimento de saudade de algo que não se viveu? Eu não. Talvez se possa recorrer a outras vidas para que cheguemos a uma conclusão. Ficaria mais fácil, assim, até entender por que Adele, vinte e poucos anos, canta como se fizesse isso há séculos. Ou por que Guardiola, pouco mais de 40, já tenha feito história.

Mais que o talento de ambos, no entanto, o que me surpreende é a emoção, o respeito e a reverência que despertam. Até mesmo neste roqueiro corintiano.



Escrito por Marcos Paulino às 10h21
[] [envie esta mensagem] []


 
   Aventureira involuntária

De repente, a parede de água surgiu, colossal, inimaginável. Muitos e muitos metros se estendiam além da superfície.  Assim que o estímulo que lançara a onda a quilômetros de distância começou a dar sinais de fraqueza, a gravidade empurrou toda aquela imensidão de água para baixo. E, embaixo dela, pouco, quase nada, sobrou. A protagonista desta história, que nem nome tem e por isso doravante será tratada assim mesmo, somente como protagonista, descansava, tranquila, no quarto. E foi, assim como todos aqueles milhões de criaturas, das mais diversas espécies e idades, apanhada de surpresa. Subitamente, seu mundo era o caos. Nada além do mais profundo caos.

Tudo havia virado uma confusão de entulhos, móveis, carros, seres vivos e mortos, todos eles envolvidos em água, sabe-se lá quantos zilhões de litros de água. Sorte que a protagonista sabia boiar. Quando o dormitório em que repousava deu espaço à água, ela, mesmo sem entender bulhufas do que acontecia, apenas usou sua habilidade natural de boiar para ficar acima da superfície. E deste modo se garantiu naquela loucura.

Sua aventura, porém, estava apenas no início. Sabia boiar, mas era incapaz de ir para qualquer direção. Sua única opção era se deixar levar pela correnteza, sem lenço nem documento. Foi assim que sua viagem começou. Tinha um ponto de partida, mas nunca poderia imaginar aonde iria parar. Relaxou. “Se não tem remédio, remediado está”, diz, afinal, o ditado.

E lá se foi a protagonista, sem nenhuma certeza, enfim, de como – e se – chegaria a algum lugar. Sempre confiante, porém, em sua capacidade de boiar. Atravessou sóis e oceanos. Sobre ela, estenderam-se os luares mais fascinantes e despencaram as chuvas mais violentas. Sua casa a cada dia ficava mais longe e nada havia que ela pudesse fazer. Só lhe restava singrar os mares, bravios ou calmos, vez ou outra se deparando com criaturas que nada entendiam ao vê-la ali. Boiando. Sempre boiando.

Mais de um ano durou sua expedição solitária. Mas nem sol nem chuva apagaram dela as tatuagens que com tanto carinho lhe foram impostas, cobrindo-lhe as partes mais claras. Seriam elas, as tatuagens – quem poderia imaginar? – que lhe dariam uma chance de voltar para casa. E assim aconteceu.

Recolhida em uma ilha no gelado Alaska, os escritos que trazia no lombo permitiram que ela, que não pode falar, desse pistas de onde viera. Japão. Seu salvador tanto fez que, com a ajuda de um conterrâneo da protagonista, achou seu lar. Ela foi o único objeto que sobrou da casa do jovem Misaki, de quem o tsunami tudo levara.

Da protagonista, uma bola de futebol, nada apagou as mensagens que os amigos de Misaki escreveram quando ele mudou de escola. Para quem tudo perdeu, sobrou o carinho impresso no couro de uma aventureira involuntária.



Escrito por Marcos Paulino às 09h57
[] [envie esta mensagem] []


 
   Adeus, vida de astronauta

Ela subiu aos céus… e voltou!
É o maior dos pássaros, Columbia, Columbia!
Fez o Homem de novo
um navegador
Columbia, Columbia

 
Este é um trecho de “Columbia”, música que abre o terceiro disco da banda de rock Patrulha do Espaço. O álbum é de 1982, pouco depois que os EUA colocaram em órbita a Columbia, primeiro dos cinco ônibus espaciais que lançariam. Além dela, as naves Challenger, Discovery, Atlantis e Endeavour cumpriram missões no espaço.
 
Os ônibus foram criados para suceder o Projeto Apollo, que levou o homem à Lua. A novidade é que a tecnologia usada nessas aeronaves permitia que fossem e voltassem, como aviões. Antes, apenas a cápsula que abrigava os astronautas retornava à Terra.
 
Por isso, na música do Patrulha em homenagem à Columbia, a exclamação: “E voltou!”. Naquele começo dos anos 80, o surgimento dos ônibus espaciais dava a impressão de que finalmente o homem, dali a pouco, poderia se aventurar a ir além da Lua. Ninguém imaginava que os resultados dessa etapa do programa espacial americano ficariam muito aquém do esperado. O previsto era que cada ônibus faria cerca de 100 voos, com uma média de 24 lançamentos por ano. Porém, em quase 30 anos, as missões pouco passaram de 120. E ainda foram computados dois terríveis desastres, que mataram as duas tripulações. Um deles foi com a Columbia, em 2003. Ao retornar de sua 28ª missão, uma falha na proteção de cerâmica da asa esquerda acabou por destruir o ônibus quando entrava na atmosfera terrestre.
 
Era justamente da Columbia um modelo para montar que ganhei quando começava a me despedir da infância. Sem a inestimável ajuda do meu irmão, confesso que nunca conseguiria montá-lo, com todas aquelas peças frágeis e uma cola difícil de lidar. Na verdade, coube-me mesmo a parte da pintura. Que, admito, ficou longe do ideal. Extremamente longe.
 
De qualquer forma, foi mirando aquela miniatura na estante do quarto que viajei incontávies vezes ao espaço. Qual a criança que nunca sonhou ser astronauta? Pois me via dentro da Columbia, explorando planetas e estrelas, num caminho que se vai desaprendendo à medida em que se ocupa a mente com tantas preocupações.
 
A “adultice”, termo que, se não existe, acabo de inventar, é fatal para os passageiros da imaginação. Pelo menos para aqueles que não se acham loucos. Não sei se me incluo nessa turma, mas o que sei é que minhas aventuras espaciais, se ainda existiam de forma extemporânea, sofreram forte baque recentemente. Isso porque a Nasa mandou a Discovery, o último ônibus espacial a se aposentar, para um museu. A nave precisou pegar carona no lombo de um Boeing para chegar ao seu destino final. Acho que só me resta dar adeus a minhas viagens intergalácticas.



Escrito por Marcos Paulino às 08h16
[] [envie esta mensagem] []


 
   Besouro do estrume e TV

O escaravelho do estrume tem um revelante papel no ecossistema que habita, na África. Ele come e enterra grandes quantidades de fezes produzidas por herbívoros, o que faz com que diminua o número de moscas ao mesmo tempo em que enriquece e areja o solo.  Pertencente à ordem Coleoptera, considerada a maior do reino animal, com aproximadamente 37.000 espécies descritas, este besouro transforma o cocô dos animais em bolas, que vai empurrando, com as pernas traseiras, até sua toca.

Além de comida, as bolinhas de fezes servirão também de ninho, pois é nelas que as fêmeas botarão seus ovos. Interessante observar que cada escaravelho consegue empurrar bolas com até 50 vezes seu próprio peso. Colhi tantas informações sobre esse simpático besouro em um programa de um canal especializado em animais, que gosto muito de assistir.

Desculpe, leitor, se lhe entedio com o assunto, mas a questão na verdade é outra. O apresentador do tal programa quis comparar o quão custoso seria para um humano fazer o mesmo trabalho do escaravelho. Para tanto, enfiou-se num monte gigante de fezes, literalmente deixando apenas os olhos para fora. E gastou bons minutos tentando produzir bolas de cocô, além de se sujeitar a empurrar com os pés, numa posição parecida com a do inseto, um veículo de mais de duas toneladas.

Na ânsia de sobressair entre tantos programas do gênero, os apresentadores estão exagerando. Cada um deles quer provar que é o mais corajoso para mostrar animais perigosos e o que tem menos asco nas situações mais extremas. Nessa mesma edição dos escaravelhos, o apresentador se submeteu a receber golpes de veneno, potencialmente mortal, que uma cobra cuspideira lhe atirou nos olhos. Pelo menos estava com óculos de segurança, o que lhe garantiu manter a visão intacta.

Gosto de um programa apresentado pelo ex-militar britânico Bear Grylls, que ensina técnicas de sobrevivência nos lugares mais inóspitos do mundo. Não raro, ele come toda espécie de criatura, aí incluídos sapos, rãs, cobras, larvas, aracnídeos e os mais variados tipos de inseto. É preciso ter estômago forte para não fechar os olhos nessas partes. E Bear ainda faz comentários sobre o sabor característico de cada iguaria.

Entrou para a história o caso de um expoente dos programas que exploram a natureza selvagem, Steve Irwin, o “caçador de crocodilos”, ferido de modo fatal por uma arraia, quando filmava um documentário, em 2006. Sua morte, porém, parece não ter desencorajado aqueles que buscam um espacinho numa televisão onde, cada vez mais, é difícil se destacar. Morrer ou se ferir em cena já está sendo considerado um preço justo a ser pago para atrair um público que já viu de tudo na telinha.



Escrito por Marcos Paulino às 11h14
[] [envie esta mensagem] []


 
   Mulheres trogloditas

Difícil acreditar que alguém participe de tamanha babaquice, mas estão aí os vídeos para comprovar. No Maranhão, para serem aceitas num grupo, algumas jovens se submetem a levar tapas no rosto daquelas que já fazem parte da turma. Impassíveis, recebem as pancadas na cara, uma atrás da outra. Nas cenas que vi, por se tratarem de menores, as feições foram mantidas em sigilo, com imagens desfocadas. Mesmo assim, foi possível perceber a vermelhidão nas faces das garotas.

Rituais de iniciação existem desde que a humanidade surgiu neste planeta. Ficam, porém, a cada geração mais sem sentido. Os trotes para os calouros das universidades, por exemplo, ano a ano vão se tornando mais civilizados. As brincadeiras violentas e as humilhações vão dando espaço a uma recepção mais sadia, inclusive com atividades sociais e culturais. Isso possibilita que veteranos e iniciantes tenham mais chan-ces de se tornarem amigos. E evita que os humilhados de hoje sejam os carrascos de amanhã. Importante é que ca-da um participe das brincadeiras que quiser, sem ser obrigado a nada.

É o caso das meninas maranhenses. Elas nitidamente são espancadas com seu consentimento. Mas por quê? Cabeça de adolescente é mesmo difícil de entender. Sabe-se que, para eles, participar de grupos é fundamental para que se sintam integrados à sociedade. O preço que vão pagar por isso é que deve ser questionado. Até porque os ini-ciantes de agora poderão querer cobrar um preço ainda maior dos que desejarem ingressar no grupo daqui para frente, com consequências po-tencialmente desastrosas.
Chama ainda mais atenção serem garotas as protagonistas dos vídeos. Esse tipo de violência sempre foi muito mais associado aos homens. Mas o que se vê agora, com cada vez mais frequência, são mulheres se espancando.

Com essa história de que cada celular é também uma câmera, não faltam imagens de mulheres partindo para a ignorância, seja nas escolas, seja no trânsito ou em baladas. Chutes, socos, tapas e outras agressões, antes tão características dos homens, fazem cada vez mais parte do repertório feminino.

Acho assustador. Mulheres e violência não têm - ou pelo menos não deveriam ter - nada em comum. Simplesmente não combinam. Gosto da ideia de mulheres fortes, daquelas que se fazem passar por “sexo frágil” apenas quando, astutas, assim o querem. Admiro mulheres que sabem marcar posição com inteligência e sensibilidade, cientes de que têm não apenas um, mas vários sentidos a mais do que os homens. São aquelas que acreditam que apelar para a violência só as iguala a nós naquilo que temos de pior. Triste que algumas se espanquem e se deixem espancar. Como nós, estes machos trogloditas, fazemos inutilmente há tantos séculos.



Escrito por Marcos Paulino às 11h40
[] [envie esta mensagem] []


 
   Perdão pela vergonha

“Profecia é com dois esses?”. Recebi a pergunta da minha mulher e colega de trabalho com ar de desdém, por óbvia a resposta. Os mais chegados a mim têm por hábito pedir minha opinião sobre suas dúvidas com nossa complicada língua pátria. Pensam eles, coitados, que sou um grande conhecedor do assunto, só porque batuco neste tecladinho há mais de duas décadas. Ledo engano.

Fico na minha. Se acham que sou melhor que a média em algo, não sou eu quem vai desvalorizar minha própria banca. Faço cara de entendido e mando a resposta. Mesmo que não tenha assim tanta certeza. Depois, se preciso, vou pesquisar. Mas primeiro respondo, claro. Como assim, “não sei”?

Deste modo, é um tal de “Como se escreve exceção?”. “O certo é deste ou desse?”. “Ideia ainda tem acento?”. E lá vou eu, exibido, dizendo o que é certo e o que é errado, um mala sem alça metido a professor. Do alto de tamanha empáfia, respondi a minha mulher que, claro, “Profecia não é com dois esses. É com ce. Humpft”. “Então você escreveu errado”. Meu mundo caiu, como na música.

“Eu???”, tentei duvidar. “Não pode ser”. Mas era. Fui desmascarado. E, pior, publicamente. Estava aqui, neste mesmo espaço, na coluna da semana assada. “Professia”. Sim, desenganado leitor. Escrevi profecia com dois esses. Eu podia estar roubando, podia estar matando. Mas, criminoso da pior estirpe, assassinei mesmo foi a língua portuguesa. Pelo que, constrangido e com o rabinho entre as pernas, peço mil desculpas.

Agravante: não foi por falta de revisão. Li o texto três vezes antes de mandar para publicação. Nada constou. Concordo que revisar a própria escrita não é o ideal. Mas fique sossegado, leitor, que vou poupá-lo de desculpas esfarrapadas. Errei e pronto. E, nisso, tenho que deixar meu muito obrigado à tecnologia. Se a burrada impressa já não tinha mais jeito, só me restava suportar a vergonha.

Porém, nas versões da crônica para os sites que as recebem, pude consertar a tempo. Quem leu no papel pôde rir à vontade da minha desgraça. Mas os que leem pela internet nem supõem (ou supunham, até agora) o tamanho da minha ignorância. Quer dizer, talvez suponham, mas por outros motivos.

Já com alguns anos de experiência escrevendo para sites, noto que essa flexibilidade é uma grande vantagem em relação ao papel. Por outro lado, exige menos de quem escreve. Afinal, muitas vezes se pode consertar o erro antes que tome maiores proporções.

Isso acarreta, é claro, menos cuidado com a qualidade. É comum que sites de notícias joguem a matéria no “ar” para depois, se necessário, fazerem adequações. O furo passou a ser medido por segundos, não de um dia para o outro. Resultado: apuração menos cuidadosa. Mas aí você já deve ter notado que estou mudando de assunto para deixar meu vexame no passado. Foi mal.



Escrito por Marcos Paulino às 15h23
[] [envie esta mensagem] []


 
   Um dia dará problema

Na charge que vi dia desses, um maia segura uma pedra em formato de roda, na qual, com uma talhadeira, havia desenhado números e letras, como num calendário. Ao chefe, diz: “Só coube até 2012”. O superior: “Isso um dia ainda vai dar problema...”. A piada, ótima, ironiza a histeria por parte dos mais crédulos - como se acredita em tudo, meu Deus! - devido à previsão de um tal calendário maia de que o mundo vai acabar em 2012. Como se o fim deste nosso planetinha azul já não tivesse sido anunciado zilhões de outras vezes. E aqui estamos, vivinhos da silva. Bem, quem morreu foi de outras causas. Ninguém ostenta na certidão de óbito: “Causa mortis: fim do mundo”. Enfim.

Que a Terra vai acabar um dia não é uma suposição, uma profecia ou somente um temor. É uma certeza. Vivemos numa bola cheia de carvão em brasa por dentro (certo, é um pouco mais complicado que isso, mas vá lá) e que depende de uma estrela, mais conhecida como Sol, para se manter viva.

Se não esfriarmos por dentro antes disso, chegaremos ao fim no dia em que o Sol, como qualquer estrela, se apagar. Ou terminar numa grande explosão. Sei lá, escolha o fim que você preferir. E aí, babau. Contudo, é possível que nem precisemos esperar o Sol dar adeus para passarmos de realidade à doce lembrança do dia em que o universo tinha uma bolinha azul cheia desta gente bonita e ordeira.

Assisti recentemente a um programa em um canal pago, deve ser o Discovery, que enumerava várias maneiras de a Terra acabar. Qualquer uma delas é bem mais aterrorizante do que Hollywood jamais filmou. Ou imaginou. Tomar uma pancada de um asteróide qualquer, tipo aquele que mandou os dinossauros para a cucuia, seria um fim até bonito.

E nem se falava no programa do final que nós mesmos, estas estúpidas criaturas que teimam em destruir o próprio mundo, podemos nos dar de presente. Nada de guerra atômica ou algo parecido. Mas de como podemos ser varridos por imensos terremotos ou tsunamis, em escala que Richter nenhum ousaria calcular.

Fora os supervulcões. Eles estão por aí, bem debaixo dos nossos pés, esperando apenas uma brechinha nesta crosta terrestre, fina como uma bolacha de água e sal, para jorrar bilhões de toneladas de magma nas nossas cabeças.

Um desses vulcões, inclusive, está sob o Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos. Sabe aqueles gêiseres que fazem a alegria dos turistas quando lançam água quente? Taí, são fruto do tal vulcão, que, se um dia lhe der na telha, vai nos mandar para o espaço. Ou melhor, nos tirar dele.

Agora, sinceramente: com tantas opções para dar um ponto final na Terra, seria um maia, sabe-se lá quando, que iria adivinhar como aconteceria? O negócio é ir vivendo cada dia como se fosse o último, até que seja mesmo.



Escrito por Marcos Paulino às 11h33
[] [envie esta mensagem] []


 
   Sarcasmo é meu nome

Família, Amizade, Sarcasmo. Essas três palavras me pularam aos olhos enquanto eu observava aquele emaranhado de letras. Família, Amizade, Sarcasmo. Elas vieram assim, nessa ordem, com poucos segundos de diferença umas das outras. Família, Amizade, Sarcasmo. Como assim? O resultado deve ser o mesmo para todo mundo. Não era.
Trata-se de uma dessas muitas brincadeiras que, às centenas, ou aos milhares, vêm ganhando a internet via Facebook.

Alguém conhece uma delas, gosta e vai republicando, alcançando outras tantas pessoas. E logo todo mundo que tem perfil  no Facebook – e quem não tem? – já viu ou ainda, pode apostar, vai ver. Pois esta em tela, como gostam de dizer os advogados, consiste numa espécie de caça-palavras, daquele tipo tão comum nos livrinhos de palavras-cruzadas. São várias fileiras de letras, dispostas lado a lado. Nelas, deve-se encontrar palavras que façam sentido, na horizontal, vertical, diagonal, de trás pra frente.

No tal joguinho, diz-se que as três palavras que você encontrar mais rapidamente são as que mais fielmente descreverão sua personalidade. Não tenho muita paciência para isso, costumo passar direto e ir procurar algo mais interessante para fazer. Mas essa me deu vontade de experimentar, mesmo achando que se tratasse de pegadinha.

Olhei um pouco para aquelas letras e “Família” me saltou aos olhos. Legal. Continuei e “Amizade” se destacou entre o caos alfabético. Bacana. E, golpe derradeiro no meu ceticismo, “Sarcasmo” se apresentou. Taí, se há três palavras que podem definir meu estilo de vida, essas foram escolhidas a dedo. Sabe-se lá por quem, mas deve me conhecer bem.

Ainda desconfiado, fui verificar os comentários de outras pessoas que haviam feito a mesma brincadeira. Cada uma ia colocando as três palavras que tinha encontrado primeiro. Não achei nenhum que coincidisse com as minhas. Interessante. O apego que tenho pela família e o apreço que reservo aos amigos de verdade podem ser realmente destacados como minhas características, digamos, “do bem”.

E o sarcasmo? Ah, esse meu velho companheiro. Lembro-me de uma aula no ginásio (na época, ainda se chamava ginásio) em que uma professora elogiava uma ilustração de um livro. Achei cafona (sim, na época cafona era um adjetivo também em uso) e não resisti a um comentário irônico. E a professora: “Como você é sarcástico!”.

Foi meu primeiro contato com aquela palavra, que me acompanharia desde então. Dia desses, assisti a um desenho animado com meu filho em que os personagens, a cada piada, discutiam se era sarcasmo ou não. Achei engraçadíssimo. Na verdade, percebia meu estilo naquelas tiradas. Pobres familiares, coitados dos amigos, amados, porém obrigados a conviver com meu sarcasmo.



Escrito por Marcos Paulino às 11h55
[] [envie esta mensagem] []


 
   Sobre justiça e insetos

Não me lembro bem se estava lavando a louça ou se apenas fui apoiar alguma coisa na pia. Só sei que, de repente, dei-me conta de que uma pequena borboleta pousara na janela à minha frente, bem na altura dos meus olhos. Tinhas as asas num tom acinzentado, mas com estreitas faixas que iam do amarelo ao laranja. Bonitas. A aparência interessante daquele insetinho, aliada ao fato de que ele permaneceu praticamente imóvel enquanto eu o observava, fez com que não passasse pela minha cabeça matá-lo, nem mesmo espantá-lo.

Uma noite se passou e, na manhã seguinte, a borboleta continuava no mesmo lugar. Mais uma vez, apenas a observei, agora com menos interesse, e a deixei em paz. Pouco mais tarde, no banheiro do escritório, deparei-me com outro inseto, este bastante diferente da borboletinha, embora também pequeno. Era bem esquisitão, com pernas desproporcionalmente compridas para seu tamanho. Além de feio, seu estilo se afastava ainda mais do da borboleta por sua inquietude. Voava de um lado para outro, sassaricando à minha volta. Por medo ou necessidade de atenção, ele não conseguia ficar parado.

A esta altura, incomodado com aquela criatura exótica rondando meu espaço, tive o ímpeto de dar-lhe um fim. Para isso, não seria necessário mais que um tapa. Algo, porém, deteve-me. Deve ter sido o receio de ser injusto. Tenho pavor a injustiça. Ou quem sabe foi o sentimento de que não se deve decidir o destino de uma criatura apenas por sua aparência, pelo seu jeito de ser.

Afinal, nem a borboleta nem aquela espécie de besouro haviam tocado em mim.  Mesmo que o tivessem feito, nenhum dos dois poderia me causar problemas. Acho que nem se eu fosse estúpido o suficiente para permitir que se esfregassem nos meus olhos ou se pinchassem pela minha boca adentro. Julgar que o feioso deveria morrer apenas por ser assim, desprovido de uma melhor diagramação, ou simplesmente pelo seu jeitão um tanto saracoteante, pareceu-me cruel.
 
Decidi: não seriam os belos traços amarelo-alaranjados da borboleta que fariam a diferença entre a vida e a morte. Se ela tem o direito de permanecer por aí, mesmo que paradona na janela da minha cozinha, o besouro mal ajambrado também teria. Ué, não somos críticos ferrenhos de quem julga apenas pelas aparências? E tem mais: como diz o ditado, quem ama o feio, bonito lhe parece. Quem garante que aquele bicho, desconjuntado sob meu ponto de vista, não tem uma legião de admiradoras na comunidade de onde saiu? Bom, nem sei mesmo se o besouro era macho, mas vale também o oposto. Vai que era uma besoura famosa entre seus pares pelas pernas longas.

Seja como for, naquele dia fui justo. Talvez não tanto quanto um passarinho, que teria comido besouro ou borboleta, sem tantas reflexões. Mas isso é outra história.



Escrito por Marcos Paulino às 09h23
[] [envie esta mensagem] []


 
   Pai Nosso compulsório

Quando se acha que os seres humanos, mais especificamente muitos daqueles que escolheram a política como profissão, cometeram todos os absurdos possíveis, lá vem outra surpresa. Nem se trata mais de falar de roubalheira e corrupção, tão banais que se tornaram uma parte da cultura brasileira. Mas sim de idiotices tão grandes, de tamanhas imbecilidades, que faltam até palavras para classificar.

Desde o primeiro dia deste ano letivo, os alunos e os professores das escolas da rede municipal de Ilhéus, na Bahia, devem rezar o Pai Nosso antes do início das aulas. A lei é de autoria do vereador Alzimário Belmonte. Ele é evangélico, mas isso não faz a menor diferença. Daria na mesma se fosse espírita e propusesse que todos tomassem um passe antes de se sentarem nas carteiras ou se fosse muçulmano e legislasse para que os estudantes orassem voltados para Meca cinco vezes por dia

O fato é que escola não tem nada a ver com religião. Ou ao menos não deveria ter.  O  vereador ressalta que a lei não prevê qualquer penalidade para quem não quiser rezar. Ou orar, como ele prefere. Ué, por que então aprovar uma lei que, se descumprida, não acarretará qualquer punição para o “infrator”. Será que em Ilhéus não há nada mais importante com o que se preocupar?

Li sobre essa lei num site de notícias de grande alcance. Mais de 200 pessoas opinaram. Não tive obviamente a paciência de ler todos os comentários, mas, dos que vi, havia unanimidade sobre o absurdo da lei. É sempre esse o resultado quando se mistura política com religião. Não é segredo para ninguém que igrejas – mais uma vez, não importa de que vertente religiosa – trabalham para eleger determinados políticos.

Claro, isso não acontece só com religiosos. Empresários, agricultores ou professores também têm o direito de se unir em torno de um ou mais nomes que os representem nas esferas municipal, estadual ou federal. O problema começa quando esses políticos passam a agir meramente como fantoches dos grupos que os elegeram.

Pior ainda se sua linha de atuação, como no caso de Ilhéus, atravessa caminhos pelos quais não deveria trafegar. Pautar sua atuação pública de acordo com suas orientações, de quaisquer naipes, não é errado. É legítimo defender interesses de uma determinada comunidade. O que não pode é impor comportamentos de seu grupo a pessoas que nada têm a ver com eles.

As crianças que simplesmente se recusarem a rezar antes das aulas em Ilhéus não poderão ser punidas. Mas será que não vão sofrer algum tipo de discriminação? Um professor que comungue da mesma fé do vereador autor da lei será tão tolerante com os “rebeldes” quantos os demais? Por isso, política e religião devem estar cada uma no seu quadrado.



Escrito por Marcos Paulino às 14h21
[] [envie esta mensagem] []


 
   Muito além do sexo

O importante é ser feliz. Desde que não se prejudique outras pessoas, é legítimo procurar por aquilo que lhe faça bem. Quem tem a paciência de tolerar minha companhia (são bem poucos) costuma ouvir: “O mundo seria bem melhor se cada um cuidasse da sua vida”. Essa é uma das pérolas da minha doutrina. Brincadeira, não tenho uma. Nem pretendo ter.

Mas realmente me incomoda o sujeito que quer fazer com que os outros mudem suas opiniões para que se alinhem às dele. Algumas vezes, até mesmo na marra. Vide as torcidas organizadas de futebol, capazes de matar alguém simplesmente pelo fato de gostar de outro time.

Inflexibilidade, intolerância, radicalismo não costumam gerar bons frutos. Uma das áreas em que mais se mete a colher é a dos relacionamentos amorosos. Vigia-se se o casal é formado por pessoas da mesma “raça” (detesto usar essa palavra para designar grupos étnicos), do mesmo nível socioeconômico e cultural, de idades próximas e, claro, e talvez principalmente, de diferentes sexos.

Como se qualquer uma dessas características estivesse acima do amor, da atração física, da sintonia, da vontade de estar juntos. Se o fulano ama sicrano e é correspondido, se ambos se relacionam de livre e espontânea vontade, se um faz o outro feliz, que mal há se são dois homens, duas mulheres ou o raio que os parta? Há muita gente, entretanto, que não pensa como eu. Tudo bem, cada um pode ter a sua opinião. O problema é querer marginalizar a opção do outro.

Para mim, que nunca fumei na vida, é fácil criticar quem não consegue largar o cigarro. Difícil é entender, é estabelecer condições para que eu e o amigo fumante tenhamos um relacionamento em que nenhum dos dois se sinta prejudicado.

Não é importante se a pessoa é homo ou heterossexual. Mas sim se é honesta, se cumpre suas obrigações, se faz o bem. O Conselho Federal de Psicologia proíbe, desde 1999, que os profissionais da área tratem como transtorno comportamentos homoeróticos. E que sejam emitidas opiniões públicas que façam qualquer ligação entre distúrbio psíquico e homossexualidade.

Um grupo de deputados da bancada evangélica tenta derrubar esses itens por meio de um projeto de decreto le-gislativo. Ou seja: para eles, ser gay é uma doença, que deve ser combatida com tratamento psicológico. Acho que isso é ver as coisas de modo tão raso…

O relacionamento entre duas pessoas não está calcado apenas no sexo. Que, claro, é parte importante, com determinado peso para cada casal. Mas há tanto mais envolvido na união de dois seres humanos, será que não compreendem?

Fazer cada um se sentir bem e integrado socialmente, não importando suas orientações, isso sim deve ser a luta de quem diz amar o próximo.



Escrito por Marcos Paulino às 11h37
[] [envie esta mensagem] []


 
   Nas ondas da vida

Se cada cabeça, uma sentença, cada idade, um anseio. Você tem fome do quê? O adolescente tem apetite pela vida. Todos temos, ou deveríamos ter, mas eles, mais. Será?
 
A conversa rolava na academia de musculação. Em cena, protagonistas, dois jovens. Ele um pouco mais velho. Ambos bonitos, saudáveis. Cheios de vida, enfim. A menina, jeito tímido, escuta. O garotão, falante, faz um breve resumo de seus últimos tempos e revela o que pretende para um futuro próximo.
 
Jovens são assim. Têm dificuldade – sorte deles – para pensar lá adiante. Planejam o que está por vir daqui a pouco. Ele conta que desistira da faculdade após apenas seis meses de curso. Não era aquilo, afinal, o que esperava. Teve a coragem, e talvez o apoio, que poucos têm. Não deu certo, ainda há muito tempo pela frente, muda-se de ideia. Por que não?
 
Quanto mais cedo se colocar a estaca junto ao caule da árvore, maior a chance de ela seguir o caminho que mais facilmente a levará à luz. O rapaz, no entanto, não está pensando em novo curso. Pelo menos por enquanto. Em seus sonhos, está passar uma temporada nos Estados Unidos, de preferência na Califórnia. “Vou arrumar um trampo e surfar”, vislumbra ele, já salivando com os dividendos que lhe trarão seus planos, mesmo que ainda incipientes. “Tem que curtir agora, enquanto somos novos, não temos filhos”, palestra ele para sua bela interlocutora. Ela consente num gesto de aprovação com a cabeça, mas sem muita convicção, ao que parece.
 
Talvez, no plano de vida dela, esteja uma boa universidade. Uma carreira numa área promissora. Pode ser que seus pensamentos passem longe das ondas e dos corpos que se idealizam dourados na Califórnia. Curtir a vida, enfim, certamente tem diferentes interpretações, depende de cada um. Há quem sonhe com filhos desde muito cedo. Há os que objetivam ser ricos, e para tanto não medem esforços. Para um ou para outro, as ondas estarão sempre no mar, e surfá-las pode ser um plano para outra hora.
 
E você, leitor, diga agora, tem fome de quê? Melhor: ainda tem fome? Fome de vida, entenda. Já ouvi, de mais de um amigo de meia-idade: “Já curti muito, depois que casei, sosseguei”. Aposentou? Assim, tão cedo? Será que, como acredita o rapaz da academia, curte-se apenas durante a juventude? Na contramão dessa crença, leio artigo de uma antropóloga que, em seus estudos, segundo relata, descobriu senhoras famintas pela vida.
 
Que, após criarem filhos e cuidarem de netos, trabalharem dentro e fora de casa, depois de maridos e pressão por corpos perfeitos, sentem-se agora livres. Isso, livres. Têm mais tempo para pensar em si mesmas, sem as amarras bestas com as quais tantas vezes a sociedade nos prende. Estão prontas para deslizar nas ondas desta Califórnia chamada vida.



Escrito por Marcos Paulino às 11h10
[] [envie esta mensagem] []


 
   Carnaval já foi da hora

Do alto de toda a experiência acumulada em seus 8 anos de vida, meu filho sentenciou: “Halloween é muito mais da hora que Carnaval”. E arrematou, impiedoso: “Carnaval não tem a menor graça”. Passou então a discorrer sobre as muitas brincadeiras que acontecem em sua escola no tal do Halloween, ou Dia das Bruxas aqui para nós. A preferida dele, por exemplo, é usar catchup simulando sangue.

Não que a escola deixe de fazer também sua homenagem ao Carnaval. Pelo contrário. Na sexta-feira anterior à folia, as crianças são convidadas a ir para a aula fantasiadas e participam de uma míni-matinê com direito a confetes, serpentinas e marchinhas. O problema é que meu filho, talvez a exemplo de tantos outros desta novíssima e agitada geração, não acha “a menor graça” nisso.

As tradicionais marchinhas, algumas do tempo dos meus avós, já não empolgam os pequeninos. Tampouco confetes e serpentinas, ao que parece. Acostumada aos mais espetaculares efeitos visuais e sonoros, a criançada de hoje desdenha de pedacinhos de papel arremessados ao ar. Descolada, essa galera deve achar sem sentido a letra que desconfia da masculinidade do Zezé por causa de sua cabeleira. Aliás, se o Zezé é ou não é, tanto faz. Onde está a graça disso?, certamente pergunta-se a turma. E se a Chiquita Bacana, aquela da Martinica, se veste com uma casca de banana nanica, o que há de errado? Nos desfiles que os moleques veem na TV há centenas de mulheres vestindo muito menos que isso.

Fato é que a geração do meu caçula não é a primeira, nem de longe, a perder o interesse pelo Carnaval. Pelo menos por aquela folia mais tradicional. Minha filha, por exemplo, vai passar os quatro dias numa fazenda, bem longe daquilo que antigamente entendíamos como folia. Se levá-la a um baile carnavalesco tradicional, que alguns poucos clubes insistem em realizar, ela nem vai saber como se divertir. O Carnaval dos mais novos só faz sentido se for aquele dos trios elétricos e dos abadás. Movido por uma trilha sonora que permite do axé ao sertanejo, passando pelo funk e chegando até mesmo a ritmos eletrônicos estrangeiros.

Essa é a festa de jovens que não fazem a menor ideia de quem sejam Pierrot e Colombina. Que vão achar ridículo o duplo sentido de marchinhas que dizem que “a pipa do vovô não sobe mais”. Ou que avisam que a Maria Sapatão, à noite, vira João. E vão gargalhar ao escutar que o Kojak, o homem da lei, “mete bronca na moçada”.

Nem sei se tudo isso merece lamentação. O tempo passa, as coisas mudam. Penso até como os clubes contornariam hoje a fiscalização sobre a poluição sonora durante os bailes. Ou sobre a venda de bebidas para menores.

Mas, de minha parte, o que restam são ótimas lembranças de uma festa em que, durante quatro dias, a gente era mais feliz.



Escrito por Marcos Paulino às 14h00
[] [envie esta mensagem] []


 
   Não suporto novelas

Não suporto novelas. Acho que é o tipo de programa que afronta a inteligência. Longe de mim posar de intelectual que só assiste a canais culturais, pelo contrário, gosto de vários besteiróis. Mas novela, definitivamente, não dá. Há alguns anos, minha mulher ainda acompanhava uma ou outra. Para não ficarmos naquela de cada um num cômodo, eu fazia companhia a ela. Contudo, reclamava tanto das bobagens que via, que até ela, vítima da minha (má) influência, convenceu-se de que novela é chato demais. Diga-me com quem andas e te direi quem és, compreende?

E, assim, vimo-nos livres de todos aqueles dramas que começam lá pelas seis da tarde e vão se sucedendo até depois das 10, espremendo noticiários entre eles.

Porém, e a vida tem muitos poréns, estávamos de férias semanas atrás e, no apartamento, só tínhamos acesso aos canais abertos. Nada de cabo ou satélite. Longe do “House”, do “Two and Half Men”, do “Big Bang Theory” e do “Grimm”. Privados dos canais de esporte. Alijados dos documentários. Triste. Assim, entre um programa religioso, um telejornal local chatíssimo e a novela, ficamos com a última, mas não foi uma decisão fácil.

Lá pelas tantas, a vilã, interpretada pela Christiane Torloni, via-se ameaçada por um rapaz que prometia revelar um vídeo, gravado em seu notebook, que a colocaria em maus lençóis. Mas ela foi salva pelo personagem de José Mayer, com inacreditáveis cabelos e barba longuíssimos e grisalhos. Num piscar de olhos, ele toma o computador das mãos do rapaz, localiza o arquivo e o apaga. O moço fica desolado por perder sua arma. Isso porque não tinha gravado arquivo de tamanha importância em nenhum outro lugar. Nem num CD ou pen-drive.

Quem precisa encontrar qualquer coisa em seu próprio computador sabe que essa tarefa, às vezes, pode levar um tempinho. E que, mesmo que se apague o arquivo, ele pode ser localizado na lixeira ou resgatado por um técnico.

Mesmo depois do stress, os personagens de Christiane e Mayer transaram tranquilamente. Ah, para completar, parece que Mayer interpreta o pai do rapaz que ele prejudicou. Bastaram tantos absurdos em uma só cena para que eu renovasse minha convicção de passar longe de novelas. Sou muito mais feliz sem elas. E, de quebra, ainda evito que meus filhos criem o hábito de acompanhá-las.

Sei que, a esta altura, tem muita gente me criticando. Paciência. É aquela velha história de cada um ter um gosto. Então, quem quiser assistir a qualquer uma das 800 novelas que passam na TV brasileira diariamente, que o faça. Tem todo o direito. Assim como aqueles que gastam seu tempo vendo um monte de gente chata confinada numa casa sem nada para fazer, a não ser picuinhas. Aliás, o que aconteceu com o “estuprador” do “BBB”?



Escrito por Marcos Paulino às 14h46
[] [envie esta mensagem] []


 
   Ai, se eu te pego, ai, ai

Nossa, nossa/ Assim você me mata/ Ai, se eu te pego/ Ai, ai, se eu te pego/ Delícia, delícia/ Assim você me mata/ Ai, se eu te pego/ Ai, ai, se eu te pego

Quantas centenas, ou milhares, de vezes você já escutou esse refrão? Sim, eu sei, muito mais do que é possível contar, certo?

Eu também. Porém, até setembro do ano passado, não tinha ouvido essa música uma vez sequer. Até que estive no Rodeio de Limeira, a trabalho, e me chamou a atenção que todos os artistas que se apresentaram nas oito noites de shows mandaram ver no “Nossa, nossa…”. Em todas as ocasiões, o público veio abaixo, letra e coreografia mais do que decoradas e ensaiadas.
 
Então descobri que Michel Teló, uma das atrações do rodeio, era o responsável pelo hit. Antes de subir no palco, a poucos metros de mim, ele falava ao celular na entrada do camarim, simplicidade total.

Naquele momento, Michel sabia que a música era um sucesso nacional, e que tinha potencial para algo mais. Mas talvez nem sonhasse com a repercussão mundial que ela alcançaria pouco tempo depois.
 
Desde então, o paranaense já foi capa de revistas como a “Época” e de tantas outras mais populares. O clipe de “Ai Se Eu Te Pego”  soma mais de 100 milhões de visitações no YouTube. E o “sertanejo” deixou para trás os britânicos Adele e Coldplay nas paradas de sucesso de países como Espanha, Itália, Holanda e Bélgica, além de ver seu hit ser o mais baixado no iTunes em outros tantos, a exemplo de Portugal, Alemanha, Polônia, Argentina, Chile, Colômbia e Peru. Até em outra galáxia a canção foi parar, por meio de uma coreografia bem humorada apresentada por Darth Vader e seus stormtroopers.
 
Tanta projeção colocou Michel Teló nos meios de comunicação de todo o planeta. A revista “Forbes”, por exemplo, citou Carmem Miranda ao falar do sucesso do cantor. E, apesar de ter o dobro da idade do canadense, ele foi comparado a Justin Bieber. Seja na versão original, seja na cantada em inglês, “Oh, If I Catch You”, a música teve a coreografia que a acompanha dançada pelo astro português Cristiano Ronaldo e pelos jogadores do Barcelona e do time de basquete americano Denver Nuggets.
 
Isso sem falar em Neymar, figurinha fácil nos shows de Michel. Até paródia de israelenses com direito à polêmica religiosa o forró teve.

Agora, uma baiana chamada Sharon, uma das autoras da música, e o grupo Cangaia de Jegue, que gravara a música antes de Michel, começam a tirar uma casquinha do sucesso. Natural. Mas o que nunca deixa de me surpreender é a velocidade com que tudo acontece hoje. Em setembro, eu nem sabia quem era Michel Teló. Hoje, até a rainha da Inglaterra deve saber. Pelo que vi ao vivo, constatei que o cara é talentoso. Resta saber se conseguirá aproveitar a chance para se manter em alta.



Escrito por Marcos Paulino às 14h32
[] [envie esta mensagem] []


 
  [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]  
 
 



Meu perfil
BRASIL, Sudeste, Homem, de 36 a 45 anos

HISTÓRICO



OUTROS SITES
 Catarro Verde
 Branco Leone
 Blog do Juca
 Scream & Yell
 Blog da Soninha
 Xico Sá
 free counters" target="_blank">Visitantes


VOTAÇÃO
 Dê uma nota para meu blog!